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Ler uma página de revista pode ser fácil para quem está acostumado com as letras e os sons, mas não é uma atividade tão simples para muitos surdos. É mais difícil para eles entender a lógica da grafia das palavras, baseada no som de cada letra, ou saber coisas como a diferença entre um verbo no futuro e um no passado. Pensando nisso, um grupo de professores e estudantes do Câmpus Palhoça Bilíngue produziu revista ReVista, destinada ao público surdo e publicada na internet. 

A ReVista tem esse nome porque, mais do que ser lida, é feita para ser visualizada – é uma revista multimídia bilíngue (Libras/Português). A publicação tem textos curtos, acompanhados de tradução em Libras (em vídeo) e de farto material visual. Suas “páginas”, que, na verdade, são links, trazem conteúdos ligados a trabalhos desenvolvidos no câmpus, em projetos integradores, de extensão e em trabalhos de conclusão de curso.

“A revista está bem bilíngue mesmo. As duas línguas estão com o mesmo peso”, destaca a professora Renata Kruesser, uma das idealizadoras da ReVista. Ela cita como exemplo dessa afirmação o fato de os vídeos com a tradução em Libras não estarem em pequenas caixinhas num canto, mas em espaço igual ao ocupado pelo texto.

A primeira “edição” foi lançada na última sexta-feira, 22 de março, em sala de aula. Ela foi produzida por dois bolsistas e cinco professores, que contaram com a colaboração voluntária de intérpretes de Libras e de estudantes surdos que traduziram os textos para o vídeo. Essa equipe foi também a responsável pela redação dos textos e pela identidade visual e construção do site.

Segundo a professora Alexandra Andrea Nunez Riquelme, integrante da equipe que produziu a ReVista, a elaboração dela envolveu aproximadamente 30 pessoas de todo o câmpus, entre servidores e estudantes. “Foi uma produção bem cooperativa”, afirma.

Dificuldades dos surdos

Um dos participantes da equipe que produziu a ReVista é o estudante Darley Goulart, do curso superior de tecnologia em Produção Multimídia, que é surdo. Ele fez a tradução de alguns textos para vídeos em Libras, com apoio de um dos tradutores-intérpretes do câmpus, Tom Min Alves.

Darley, de 23 anos, conta que cresceu comunicando-se em Libras e só foi aprender língua portuguesa aos 10 anos, para conseguir entender os conteúdos de um curso de informática. Começou estudando sozinho e contando com a ajuda da mãe, que é ouvinte. “Hoje eu aprendi, mas ainda estou tentando sempre melhorar, para me comunicar bem com os ouvintes, entender documentos e enviar e-mails no trabalho”, diz Darley, que trabalha em uma empresa que oferece cursos em Libras.

O estudante destaca como algumas dificuldades dos surdos com a leitura da língua portuguesa, a partir da experiência dele, as de entender as preposições (que não existem na língua de sinais) e as diferenças dos verbos no presente, no futuro e no passado. “A parte mais difícil é que o surdo é muito visual. Se o conteúdo for publicado em vídeo, vai chamar mais a atenção dele”, comenta.

Segundo Darley, o fato de ser surdo ajudou-o a traduzir os textos da ReVista de modo que os demais surdos conseguissem entender, mesmo os termos técnicos. “O projeto todo respeita a cultura surda”, finaliza.

A ReVista pode ser acessada no site da publicação.

Por Felipe Silva | Jornalista

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