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Um dos estados mais distantes de Santa Catarina ocupa um surpreendente quinto lugar no ranking de unidades da federação onde nasceram os estudantes aprovados para cursos de graduação do IFSC pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu) nos últimos dois anos. É o Pará, de onde vieram 83 alunos para o Instituto Federal de Santa Catarina pelo Sisu em 2018 e 2019. 

Esse número corresponde a 3,1% do total de aprovados via Sisu para o IFSC desde 2018, quando a instituição passou a adotá-lo como único meio de acesso aos cursos de graduação. Pode não parecer um percentual muito grande, mas é significativo, dada a distância - Belém, capital paraense, fica mais longe de Florianópolis por terra (3,5 mil quilômetros) que Santiago, capital do Chile (2,8 mil quilômetros), e La Paz, capital da Bolívia (3,2 mil quilômetros) - e o fato de o Pará não ser dos estados mais populosos (tem a nona maior população dentre os estados brasileiros, com 8,5 milhões de habitantes).

Somente Santa Catarina (58,4% do total) e os mais próximos e populosos estados do Rio Grande do Sul (11,2%), São Paulo (8,1%) e Paraná (7,6%) tiveram mais estudantes aprovados para cursos do IFSC pelo Sisu nos últimos dois anos.

Os motivos que levam a essa migração podem ser vários, desde busca por melhores oportunidades de emprego a fuga da violência urbana. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no final de 2018 a taxa de desemprego no Pará era de 11,1% e, em Santa Catarina, de 6,4%. Já de acordo com o Atlas da Violência, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brsileiro de Segurança Pública (FBSP), a taxa de homicídios no Pará ao final de 2016 (dado mais recente disponível) era de 50,8 para cada 100 mil habitantes, contra 14,2 para cada 100 mil habitantes em Santa Catarina.

Em alguns casos, a jornada para atravessar quase todo o País de norte a sul é motivada apenas pela busca do curso de graduação sonhado, já que a oferta em Santa Catarina é maior, mesmo com população menor (7 milhões). A plataforma e-MEC, do Ministério da Educação, tem 3.484 cursos de graduação em atividade cadastrados em instituições de ensino catarinenses, enquanto em instituições paraenses são 2.331.

Oportunidades

Trabalho e independência financeira motivaram Amanda Gizela de Sousa Silva, 33 anos, aluna do curso superior de tecnologia em Produção Multimídia do Câmpus Palhoça Bilíngue desde o ano passado, a trocar o Pará por Santa Catarina em novembro de 2016. “Conheço muita gente que veio de lá para cá. Elas vêm em busca de emprego, porque lá tem menos que aqui. Também vêm em busca de melhor qualidade de vida, motivadas principalmente pela crescente sensação de insegurança em todo o estado”, diz a estudante, que é de Quatipuru, no interior paraense, mas morou em Belém por 15 anos.

Ela conta que já foi vítima de furto dentro de ônibus e que vários familiares e amigos foram vítimas de assaltos em Belém. “Isso se tornou comum lá”, completa.

Segundo Amanda, Santa Catarina também tem mais oportunidades de educação. “Fiquei surpresa ao ver que sobram vagas em institutos federais. No Pará, a demanda é muito grande para as instituições de ensino superior públicas. E as formas de ingresso também são mais difíceis, por conta da demanda”, relata.

Christopher Sales Souza Marim, 17 anos, do curso de Ciência da Computação do Câmpus Lages, migrou pela segunda vez para estudar no IFSC. Com 11 anos, mudou-se de Tailândia, no interior do Pará, para o Rio de Janeiro, onde foi morar com o pai. Agora, ele veio para Santa Catarina para ingressar no curso indicado por um conhecido que mora em Lages.

“Aqui a qualidade de estudo é muito melhor do que de onde eu vim, e o curso é matutino, então de tarde e à noite consigo trabalhar”, explica. Segundo Christopher, Lages é um lugar tranquilo e com índice de criminalidade bem menor que o Pará.

Miryam Rosali Conceição Pereira, 44 anos, estudante do curso de Pedagogia Bilíngue (Libras/Português) do Câmpus Palhoça Bilíngue, veio do Pará para Santa Catarina em 2013 em busca de uma oportunidade de emprego para ela e de estudos para as filhas. “Não tinha ninguém da minha família aqui. Vim através de uma amiga. Tenho duas filhas. Ambas estudam e fizeram vestibular em Belém e não conseguiam passar pela demanda de concorrência”, lembra. Quase seis anos depois, ela e as filhas (de 26 e 25 anos) estão todas cursando graduação.

A estudante escolheu Pedagogia Bilíngue por causa da vontade de trabalhar como professora. “Até então não sabia que ia estudar Libras. Quando soube, aí fiquei mais apaixonada, porque sempre tive vontade de aprender Libras”, diz.

Irmãs

Dentre os 47 estudantes paraenses que ingressaram na graduação do IFSC em 2019, estão as irmãs Graycy Kelly Pereira Coelho, 24 anos, e Emanuelly Kariny Pereira Coelho, 19 anos, que vieram de Belém para a região de Florianópolis motivadas pelo desejo de estudar nos cursos de licenciatura que escolheram: Graycy faz Pedagogia Bilíngue (Libras/Português) no Câmpus Palhoça Bilíngue e Emanuelly é estudante de Química no Câmpus São José.

Graycy conseguiu ingressar em Pedagogia Bilíngue no terceiro ano em que inscreveu-se para o Sisu. Tinha o desejo de estudar técnico em Libras (Língua Brasileira de Sinais) quando morava em Belém, motivada por uma amiga que trabalhava na área da educação. “Mas era um curso um pouco demorado para um técnico [dois anos e meio], então resolvi tentar a graduação”, conta. Pesquisando na internet, encontrou o Câmpus Palhoça Bilíngue, para o qual se inscreveu.

A estudante também comemora a entrada em um novo emprego, em um call center, que ela conseguiu em pouco tempo. “Foi bem fácil, até. Mandei um e-mail e eles logo me chamaram para a entrevista”, diz.

Saudades e adaptação

Antes de vir para Florianópolis, as irmãs trabalhavam com a mãe em uma empresa familiar de confeitaria e organização de bufês em festas. A mãe ficou em Belém, assim como a filha de 4 anos de Emanuelly. A saudade da família pesa bastante, além da falta de alimentos como tucupi (caldo extraído da raiz do aipim) e açaí do Pará, que, dizem elas, é bem diferente do que é vendido em Santa Catarina.

Ainda assim, a adaptação tem sido facilitada pela boa recepção que tiveram dos colegas e vizinhos (moram no bairro Praia Comprida, o mesmo do Câmpus São José) e pelo atendimento que recebem no IFSC. “Está sendo bem tranquila a adaptação. A instituição tem uma estrutura boa. Recebemos muito apoio da Assistência Estudantil”, conta Graycy. “Tivemos uma recepção ótima e aqui a gente consegue resolver as coisas facilmente”, completa Emanuelly. Morando há menos de dois meses em São José, elas ainda não tiveram tempo para conhecer a região.

Amanda, do curso de Produção Multimídia, diz que famílias e amigos do Pará são o que mais sente falta, assim como da comida e do dialeto paraense. “Morro de saudades da comida, mas algumas vezes durante o ano posso matar a saudade quando vem algum parente e traz comida de lá”, relata.

Migrante pela segunda vez, Christopher, do Câmpus Lages, diz que a sua adaptação foi bem rápida. Ele elogia a cultura local, que considera “bem forte”, e ainda planeja conhecer melhor a gastronomia serrana. “Aqui eles falam do pinhão. É algo que eu quero experimentar bastante, assim como o chimarrão. Todo mundo fala bem”, comenta.

Promessa e dívida

Antes de inscrever-se no Sisu para o IFSC, as irmãs Graycy e Emanuelly fizeram um pedido para Nossa Senhora de Nazaré, um dos títulos dados na religião católica a Maria, mãe de Jesus Cristo, e para quem os moradores de Belém realizam todos os anos uma das maiores manifestações cristãs do mundo, o Círio de Nazaré. As irmãs participaram de uma das etapas do Círio ano passado, a trasladação (procissão à luz de velas na véspera do Círio de Nazaré, que ocorre no segundo domingo de outubro), e nela pediram ajuda para ingressar em um curso superior.

Na mala de cada uma das irmãs, arrumadas às pressas para a viagem do Pará para Santa Catarina (foram poucos dias entre a divulgação do resultado e a data da matrícula), veio uma camisa do Círio de Nazaré. Católicas devotas, elas prometeram que voltarão a Belém na época do Círio para refazer o caminho em agradecimento ao pedido atendido. “Temos que quitar a promessa”, brinca Graycy.

Por Felipe Silva | Jornalista, com apoio de Débora Vargas | Estagiária de Jornalismo (entrevista em Lages)

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