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O público surdo dificilmente encontra atendimento acessível em lojas presenciais, no que diz respeito à comunicação em Língua Brasileira de Sinais. Os ambientes virtuais de consumo apresentam-se então como uma das alternativas mais viáveis para atender a real necessidade dos surdos enquanto consumidores.

Mas será que é realmente fácil para os surdos comprarem na internet?

Para entender como os principais sites de e-commerce do Brasil atendem aos consumidores surdos, Juliana dos Santos Krüger desenvolveu uma pesquisa para avaliar a acessibilidade do público surdo em ambientes virtuais de consumo. O trabalho de conclusão do curso de Tecnologia em Produção Multimídia foi orientado pela professora Daniela Satomi Saito.

Foram analisados três dos principais sites brasileiros de compras pela internet e apresentadas alternativas para facilitar o acesso às informações pelo público surdo:

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Para analisar a acessibilidade das páginas, Juliana utilizou as diretrizes da Web Content Accessibility Guidelines (WCAG), que oferece uma série de recomendações para acessibilidade na web, e a tese de doutorado de Carla Flôr (2016), que faz recomendações específicas para facilitar a navegação em websites pelos surdos.

Conforme as recomendações da WCAG, as páginas na web devem oferecer o conteúdo de diferentes formas, para que possa ser percebido por qualquer pessoa. Os componentes da interface devem ser compreensíveis, devem ajudar os usuários na navegação e na localização de conteúdos além de facilitar a identificação da sua posição no site.

E conforme a tese de Carla Flôr (2016), é importante que sejam usadas, junto aos links, informações sobre seu significado. Pode-se usar imagens ou texto em Libras indicando para onde o endereço eletrônico leva. Essas informações são chamadas de pistas proximais e ajudam na navegação.

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Alguns cuidados são importantes e a tese de Flôr apresenta várias recomendações para facilitar a localização dos surdos, a compreensão das informações e a percepção da relação entre as imagens e os textos. Essas recomendações servem para ajudar os designers a tornarem a navegação mais clara e fácil de usar, melhorando o desempenho dos surdos.

As páginas dos sites utilizadas na avaliação  de Juliana Krüger foram:

− a primeira página do site (home page), pois é a principal interface da página com o usuário;

− a página de pesquisa, que aparece após uma busca. Neste caso, a página que aparece quando se busca por "eletrônicos".

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Após analisar os sites com base em todas as diretrizes definidas, Juliana concluiu que:

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Mercado Livre: apresenta problemas relacionados à linguagem e utilização de textos com os links, no entanto, faz uso de ícones que favorecem o entendimento. Não faz uso de muitos elementos visuais que poderiam distrair o usuário e não possui muitos destaques para promoções. Desta maneira, o site é objetivo e limpo visualmente, favorecendo a navegação dos usuários.

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Lojas Americanas: apresenta muitos elementos visuais e informações promocionais, o que pode prejudicar a navegação e dificultar que sejam encontradas informações importantes. Não oferece destaque indicando qual seção o usuário se encontra e não faz uso de ícones para a navegação.

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Magazine Luiza: faz uso da ferramenta Hand Talk, no entanto, possui limitações quanto ao uso da ferramenta, que dá pouca autonomia ao usuário para ações como aproximação do intérprete, maximização da janela, posicionamento da janela de tradução, entre outros. Além disso, o site faz grande uso de elementos visuais e informações promocionais, que podem distrair o usuário e prejudicar a navegação.

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Fazendo uma comparação entre as páginas, pode-se considerar que o site Mercado Livre se apresenta como uma das melhores opções para a navegação, especialmente para o público surdo, por se destacar nos aspectos relacionados à clareza das informações, destaques na estrutura de menus e submenus e frequente utilização de ícones.

Verificou-se que os sites de comércio eletrônico ainda precisam aprimorar sua comunicação, de maneira a tornarem-se efetivamente acessíveis para o público surdo. Ajustes consideravelmente simples poderiam ser aplicados nos sites analisados o que facilitaria muito a navegação.

Outra consideração que poderia acarretar em grande contribuição para disseminação da acessibilidade no meio web é a sugestão de que os critérios de acessibilidade fossem utilizados para melhorar o posicionamento dos sites nas pesquisas do Google, por exemplo. Fazendo com que páginas mais acessíveis ficassem melhor posicionadas, aparecendo primeiro nas pesquisas realizadas pelos usuários, estimulando outros a também adotarem medidas para melhorar a experiência do público surdo.

Um aspecto positivo percebido é que algumas marcas presentes no meio on-line têm voltado sua atenção à acessibilidade, como o site Magazine Luiza, citado neste trabalho e que faz uso da ferramenta Hand Talk. Mas é ainda necessário que a acessibilidade, prevista nas leis brasileiras, seja de fato cumprida, permitindo que usuários com qualquer tipo de limitação, consigam ter autonomia para realizar as atividades desejadas no meio on-line, garantindo maior inclusão desses públicos.

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Para quem está pensando em desenvolver pesquisas nessa área, Juliana indicou alguns temas para trabalhos futuros:

 

- Análise de sites e-commerce baseada em testes com surdos.

- Levantamento de dados de consumo, específicos do público surdo, como gastos mensais, anuais, poder aquisitivo e potencial de compra.

- Avaliação de sites de outros segmentos, incluindo os governamentais.

- Criação de orientações e diretrizes para indexação de páginas acessíveis a serem utilizadas por buscadores (Google, Bing e outros).

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